Raquel Varela - Os jovens de hoje (2026sep21)Páginas relacionadas:
(Post original no Facebook - 21/set/2026) Tenho pensado muito nesse lugar comum "os jovens de hoje". O consumo massivo de marijuana - vendida como inócua - e agora de drogas de "aceleração" (pastilhas), é o caminho natural para uma juventude ansiosa, que sai de casa de manhã, ou pela tarde, e acha que não tem futuro. Têm mais futuro possível do que os avós - creio e vou defender isso aqui -, mas acham que não têm futuro algum. Foram também convencidos que têm todos alguma doença, do défice de atenção a Asperger, há poucos que acreditam que afinal a maior doença é falta de vida colectiva. Não saem deles próprios. E as drogas só servem para aumentar essa sensação de ficar dentro de si. Escola-casa, trabalho-casa, diversão-casa, o movimento pendular que nos afasta do género humano é cada vez mais acelerado. Notem, sou contra a proibição das drogas. O que não posso é ser a favor das drogas, andar drogado ou bêbado não é como comer uma tangerina ou dançar forró, não é certamente a experiência de prazer mais interessante da vida, de fazer amor a trabalhar com prazer, de lutar juntos e subir uma montanha quase tudo dá mais tesão, relax, prazer, enfim, do que qualquer droga. Há uma sociedade alienada e doente. A erva tinha 4% de THC (molécula psicoactiva da marijuana) hoje tem em média 35% a 40%. O que fez explodir as psicoses, entram em delírio nas urgências, ou andam entre apáticos e agressivos no dia a dia. A mesma droga que os acalma no dia a seguir os enerva. Falem com qualquer médico psiquiatra numa urgência. No caso das pastilhas leiam o aterrador artigo no Le Monde Dipomatique de Agosto, em casas e apartamentos fazem-se milhões destas merdas inventadas na II Guerra Mundial para dar aos soldados. Ao contrário do que se diz no senso comum os nossos pais viveram muito pior do que nós e não é líquido que esta geração actual de jovens viva pior do que os pais, certamente vivem muito melhor do que os avós. De onde vem tanta desesperança? Tanta sensação de apocalipse? Primeiro, os nossos pais, se fossem camponeses ou operários, com 18 anos tinham pela frente a polícia política, a guerra colonial, a imigração para viver em bairros de barracas em França, precariedade, famílias sem liberdade de escolha, se fossem de classe média tinham tudo isto com uma casa com escassos metros quadrados, muitas vezes dividida com amigos e talheres emprestados. "Antigamente é que era bom" é um mito. Há porém algo que tinham antigamente: projecto de futuro. Os avós não tinham mais futuro, tinham mais projeto. Prévia ideação - uma ideia de vida coletiva comum. A grande vitória da extrema direita - neste campo de braços dados com a social democracia, a esquerda institucional e o liberalismo, veja-se que todos juntos pilotam a guerra como "única saída" - foi convencer os jovens de que "não há alternativa". Um grande historiador do fascismo Robert Paxton recorda que todos os fascismos são distintos, porém têm algo em comum - o pessimismo. O pessimismo hoje também é dominante na social democracia, longe vão os tempos do capitalismo oferecer melhoria de vida nas contratações colectivas. Nisto estão a vencer-nos, estes canalhas. Convenceram os jovens de que "não há alternativa". Porque a esquerda deixou um campo aberto, flutuando no assistencialismo, no paternalismo, na suposta liberdade de escolha que redundou no presentismo (só há dia de hoje, não há passado nem futuro). Os jovens estão sós, pensam eles. Não admira que se tenha expandido - entre os rapazes - uma cultura de ginásio, musculação, suplementos de proteína, tudo aumentando os níveis de agressividade (guerra), enquanto os jornais comuns e campanhas pagas na redes sociais os convencem que não vale a pena estudar, ser esforçados, vai antes fazer biscates, usar o ChatGPT, arrastar-se em casa dos pais ou emigrar como quem vai de férias. Estão sem mapa, dependentes do GPS. Pensam que não há alternativa. Não têm um projecto com o género humano. E sem isso a depressão chega - somos seres sociais e relacionais, se não somos deprimimos. A minha maior adesão ao socialismo revolucionário, desde os 16 anos, vem da alegria que me dá ser parte da família humana, mesmo com todas as chatices que isso acarreta. Penso em ti, logo existo, disse o meu querido amigo Coimbra de Matos. Essa ruptura com o género humano hoje dos jovens não nasceu só nas famílias, que os protegem de forma absurda das frustrações e do sofrimento, incapazes de colocar linhas vermelhas. Protegê-los da frustração é protegê-los do trabalho real e do sofrimento, de que ninguém gosta, mas sem ele não há prazer (Christophe Dejours). Todo o trabalho exige sofrimento e prazer, e é isso que evita o adoecimento e a depressão. Não me entendam mal, nenhum trabalho exige medo, assédio, desemprego. Mas exige sim temor de errar, não conseguir fazer, ter de refazer, insistir, esforço, etc. Esse sofrimento é também o prazer, o prazer de depois conseguir fazer. Sublimação. Esta cultura do que é chamado por aí de "facilitismo" - que na verdade é de uma sociedade automatizada em que se espera que não saibam fazer nada, só carregar em botões - cresce e medra nas escolas e na universidades onde cada vez menos se exige responsabilidade, rigor, esforço. Aliás, não só não se esforçam como podem queixar-se nas caixinhas de denúncias, nos conselhos de turma, enfim são vítimas, não sujeitos. Passam 8 horas na escola, o lugar onde passam mais tempo, onde podem mentir e passar de ano, chegam à Universidade onde têm notas que há 40 anos nem Deus tinha, e agora são mesmo ensinados ao "uso ético" da fraude, "como fazer o prompt na IA e a seguir confessar" - como na Igreja - que mentiram (fazer correctas referências de que usaram a IA...). Os projectos de hoje são em quase todos os jovens de gestão do quotidiano, sem futuro, sem coletivo - não há futuro quando não há coletivo. Estão sem alternativa. Para uma parte ínfima dos jovens as carreiras das finanças e gestão são a única saída para um salário alto - nunca falarão com amor ou paixão do seu trabalho, onde exercem funções de poder do caos capitalista - mas terão acesso a bens materiais confortáveis, falarão de viagens, dos restaurantes e dos filhos; para outros a emigração, o biscate, ir de casa em casa, como nómada, não ter família ou relações de amizade e amor densas (que só se constroem com tempo), acham que estão "sozinhos no mundo", será o caminho. Outros arrastam-se na casa dos pais até aos 25, 30, 40 anos, sem autonomia, sem projecto, entre Marijuana e anti depressivos. Nenhum destes tem um projecto de sociedade. Maior do que si próprio. O pacto social entre capital e trabalho, quando havia negociações entre a burguesia e os trabalhadores, morreu em 2008. Esse pacto, nascido na derrota nazi em 1945 foi uma negociação entre os EUA e Estaline para manterem esferas de influência e convencer os trabalhadores a entregarem as armas e desistir de lutar pela revolução. A sombra de um apocalipse nuclear hoje é real, mas é muito mais provável que a resistência ao genocídio na Palestina, que tantos jovens mobilizou, que as manifestações - ontem uma gigante contra Millei - que as greves e protestos, que vão da Albânia contra a expropriação de terras aos jovens indianos, sejam o futuro. O futuro existe - só que só existe se o construímos como imaginação. Vivemos uma crise de imaginação política. O PISA só mede quem sabe contar e escrever, é o mais pobre dos medidores de competências. Não mede conhecimento, não mede quem conhece o passado (história, que nos diz que já fomos outra coisa) e quem é capaz de imaginar o futuro (literatura). A coisa mais subversiva que há é imaginar o futuro. Não vá que ele acontece mesmo. |